Marco Aurelio Seta
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”62.517 mortes violentas”

A epidemia de mortes violentas, porém, não afeta todos os brasileiros da mesma forma. Entre 2006 e 2016 foram registrados cerca de 553 mil assassinatos, que vitimam sobretudo os negros. A taxa de homicídios entre negros e pardos nesse período cresceu 23,1%, chegando a 40,2 mortos a cada 100 mil habitantes. Paralelamente, o mesmo índice caiu 6,8% entre os demais brasileiros, chegando ao patamar de 16 mortos a cada 100 mil no mesmo período. Atualmente, sete a cada dez mortos no país são negros. A média nacional é de 30,3 por cem mil. Para Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e coordenador do atlas, por trás desses números há evidências de racismo. O estudioso afirma que o dado pode ser explicado em parte pelo fato dos negros serem maioria entre os mais pobres, camada mais vulnerável a crimes. Porém, destaca que só isso não explica a diferença. Uma outra pesquisa do Ipea mapeou todos os homicídios ocorridos na cidade do Rio em 2010, constatando que negros têm chances 23% maiores de serem assassinados. “Uma pessoa branca e uma negra que moram no mesmo local, com as mesmas condições de renda e escolaridade, têm chances diferentes de serem mortas”, resume o pesquisador do Ipea. Para o sociólogo Michel Misse, professor da UFRJ e coordenador do Núcleo de Estudos de Cidadania, Conflitos e Violência Urbana (Necvu), o poder público tem falhado em reduzir essa desigualdade, que afeta sobretudo os mais jovens. Entre a população de 15 a 29 anos, houve 33.590 assassinatos em 2016, número que corresponde a 53,7% do total. Entre os jovens do sexo masculino, a taxa de homicídios chega a 280,6 mortos a cada 100 mil habitantes. Entre 2006 e 2016, 12 estados brasileiros viram suas taxas de homicídios crescerem mais de 50%. O recorde negativo no período é do Rio Grande do Norte: a taxa no estado subiu de 14,9 para 53,4 mortos a cada 100 mil habitantes, um aumento de 256,9%. O maior crescimento entre 2015 e 2016, da ordem de 64,6%, ocorreu no Acre, onde as taxas dispararam de 27 para 44,4 mortos a cada 100 mil. Atualmente, nove dos dez estados com as maiores taxas ficam no Norte e no Nordeste. Segundo Cerqueira, do Ipea, dois fatores ajudam a explicar a expansão dos índices nessas regiões. O aumento da renda criou um mercado para o tráfico de drogas até em cidades pequenas: “Mesmo em municípios menores o dinheiro passou a circular. Quando você tem dinheiro, há mercados ilícitos de drogas. E esses mercados se regulam na base da violência”. Além disso, a proliferação de facções criminosas, inspiradas nas que dominam comunidades no Rio, adicionou mais um fator de instabilidade à segurança pública desses estados. “Hoje temos mais de 40 facções criminosas no país, em que os jovens estão se matando”, afirma o estudioso.

Fonte: Publicado no Jornal O Globo em 06/06/2018.

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