Marco Aurelio Seta
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A intervenção militar – O completo desgoverno no Rio de Janeiro

Nada difícil de prever, esta intervenção militar: o completo desgoverno no Rio de Janeiro, as críticas contundentes à injustiça social durante o carnaval, a incapacidade da polícia para combater a bandidagem numa guerra perdida, a sensação de caos que baixou sobre a população carioca, as pesquisas de opinião pedindo a intervenção militar.

Não era difícil de prever e é fácil constatar que a maioria do povo do Rio apoiou plenamente a medida, como algo que precisava, que tinha que ser feito para pôr um freio no processo incontrolável de degradação da segurança pública. Se o Rio não era a cidade que apresentava os maiores índices de criminalidade, era, com  certeza, a maior vitrine de bandidagem do País.

Pois veio a intervenção, o povo aprovou e logo também se manifestou um reconhecimento de que o General Braga, o interventor, é uma figura respeitável e tem algum conhecimento da Cidade.

Obviamente, também se manifestou a preocupação de que este poderia ser o primeiro ato de uma intervenção militar que acabaria por envolver todo o País em mais uma ditadura; uma preocupação válida e mais pronunciada dos grupos de pensamento à esquerda, como seria de esperar.

Bem, tenho para mim que convém parar por aqui e aguardar um pouco mais o desenrolar dos acontecimentos, antes de qualquer pronunciamento de caráter valorativo. E considerar, ademais, que não devemos subestimar, de princípio, a eficiência e a honradez das nossas Forças Armadas, dentro deste quadro de desmoralização geral do Brasil que, no meu velho juízo, tem uma ligação com o jogo bruto da política internacional: o Brasil estava ficando importante, e tornou-se importante, para os donos do mundo e do grande capital, que o Brasil perca toda esta importância; que seja desmoralizado até o fim de todas suas instituições, inclusive suas Forças Armadas, por exemplo, numa intervenção desastrosa na vitrine do Rio de Janeiro.

A política internacional é um jogo muito, muito bruto, onde vale a guerra, a mentira, a ciência, o dinheiro, o golpe, a traição e tudo o mais: guerra é guerra, e temos que dar crédito às nossas  Forças Armadas, sob o risco de se entregar  toda a Nação.

Temos razões para este crédito: a eficácia demonstrada pelas Forças Brasileiras no comando da intervenção internacional no Haiti, realizada com o intuito de reduzir a violência e reorganizar o caos então instalado naquele país. Eu tive oportunidade de verificar em 2004, em missão do Senado, os excelentes resultados da nossa presença armada, constatando o prestígio dos brasileiros perante os haitianos, o carinho com que éramos tratados por aquele povo reconhecido.

Da mesma forma, na direção do Centro Celso Furtado, preocupado com o especialíssimo modelo de desenvolvimento da Amazônia, em duas grandes reuniões que fizemos recentemente na Região, ficou claro, para nós, o destaque absoluto, em termos de eficiência, da presença das Forças Armadas, não apenas na questão fundamental da defesa, como também do desenvolvimento daquela gigantesca região e da assistência social à população que nela vive.

Por tudo isto, e por muitas outras razões, não devemos subestimar a capacidade dos nossos militares para pautar esta intervenção-vitrine no Rio pelo respeito aos direitos fundamentais; mesmo conhecendo os episódios anteriores em que não houve este respeito. Porque o jogo bruto internacional, que já desmoralizou todas as outras instituições brasileiras, pode estar querendo agora atingir o fundo do sentimento de nacionalidade do Brasil.

Bem, e pode acontecer que a intervenção no Rio siga as exigências das regras do Estado de Direito e tenha as características de excelência como a do Haiti. Eu torço por isto; nunca consegui aceitar a visão do quanto pior melhor.  Pode acontecer que a confiança do povo nas Forças Armadas se eleve ainda mais, como resultado desta intervenção. E então? Vamos ficar contra o povo? Vamos tentar sabotar a intervenção e ajudar a desmoralizar as nossas Forças Armadas?

Ah, mas de repente pode surgir um general que seja candidato e seja eleito Presidente da República pelo voto popular.

Bem, é uma hipótese ainda longínqua; mas não somos democratas? Não acreditamos no voto universal e democrático? Um general não é um cidadão brasileiro? Não pode nos derrotar e exercer um governo democrático?

Sinceramente, é melhor que aguardemos o desenrolar desses episódios, e torçamos para que esta intervenção seja feliz e traga bons resultados. Penso assim; gosto demais do Brasil e do seu povo; como gosto do Rio e nunca, nem pelo melhor salário do mundo, vou querer morar em Miami.

Fonte: Roberto Saturnino Braga  – Artigo nº 458/2018

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