Marco Aurelio Seta
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Carta Aberta da Escola Parque ao Ministro da Educação

Sr. Ministro,

Esta é a segunda vez, no ano de 2019, que nos dirigimos ao titular da pasta de Educação para contribuir, com nosso conhecimento e experiência acumulados nos 50 anos de atuação profissional na Educação Básica, para a discussão de desempenhos questionáveis praticados por esse Ministério. Acreditamos que nossa opinião pode colaborar para uma reflexão sobre as atuações anunciadas recentemente.

Na nossa carta de março, pedíamos que o ministro da época apresentasse um plano para assegurar a aprendizagem das crianças brasileiras ao invés de se preocupar com doutrinação ideológica dentro das escolas. Até aqui, ainda não foi apresentado um plano completo para a educação brasileira. Só foram anunciadas medidas eventuais, que não parecem fazer parte de um planejamento amplo.

A primeira das medidas é o investimento na alfabetização – uma preocupação justa – mas como liderada por pessoas de fora da área, voltou a tratar da polêmica dos métodos, já superada, como sabem os especialistas no tema. O que os alunos precisam é ter livros, as escolas, bibliotecas, e os professores, formação. Outra medida anunciada, sem ligação com um programa completo de aprendizagem, é a militarização de escolas para disciplinar estudantes. Uma medida desnecessária porque professores e equipe pedagógica, profissionais da Educação, são formados para entender e lidar com as complexidades de apoiar o desenvolvimento intelectual e moral de crianças e jovens. O que importa numa escola é o encantamento com o conhecimento e não a rigidez da disciplina militar. Disciplina rígida costuma ter o resultado esconso de mediocrizar o conhecimento, inibir o questionamento e reprimir a criatividade.

Sr. Ministro, é preciso ter em mente que o mundo e várias escolas privadas estão trabalhando as competências necessárias para a vida no século XXI. Infelizmente, esse tipo de debate não está em nossas escolas públicas que, em sua grande maioria, não têm uma proposta para inserir os alunos na cultura digital, para prepará-los para resolver problemas reais, para a colaboração e a criatividade, rumos propostos por especialistas em Educação do mundo todo para a Educação Básica. Essa é uma das razões que promove a defasagem do cidadão brasileiro perante outros povos. O foco tem que estar na aprendizagem das crianças, não apenas dos conteúdos convencionais, mas das competências requeridas para o mundo atual.

O substancial corte de verbas que atinge universidades, instituições culturais e colégios de aplicação de excelência é incompreensível. Sr. Ministro, não deixe desmontar o que ainda existe da educação brasileira. Lembre-se que os professores de nossas escolas se formam nessas universidades. Sufocá-las, deixando-as à míngua, tem como resultado a falta de professores e o desaparecimento da pesquisa e da produção de conhecimento, essenciais para consolidar a identidade cultural do país.

Explicar os cortes pela necessidade de economia não se justifica. O conhecimento é um valor essencial, base do desenvolvimento das pessoas e, portanto, do país. A persistir a mentalidade de que o conhecimento é dispensável, o futuro do Brasil pagará um preço muito alto.

A Educação é a solução para sairmos da situação em que nos encontramos e caminharmos para participar do futuro global em igualdade de condições com os países mais desenvolvidos. O Brasil precisa do oposto do que está sendo feito. Precisa de investimento na infraestrutura das escolas e investimento na melhoria da aprendizagem, resgatando o respeito e o reconhecimento do professor porque é ele que prepara o futuro, que são as crianças e jovens do país. O professor merece incentivo e investimento e precisa sentir-se confortável para trazer questões complexas e, às vezes, polêmicas, para a sala de aula. A construção de conhecimento pressupõe desafios cognitivos e reflexão, e não a imposição de restrições.

Todos os países que se desenvolveram com sucesso deram atenção especial à Educação. É sempre bom repetir: o futuro de um país está na escola, está na Educação. Dispensar cursos que fundam o pensamento humano, como a Filosofia, que ensina a pensar desde a Antiguidade, e a Sociologia, que investiga e explica a realidade social, é o mesmo que desistir do país. O Sr. Ministro tem dito que teve experiência pessoal mal sucedida na universidade que frequentou, mas a política nacional para a Educação não pode estar atrelada a questões subjetivas. Cuidar da Educação de um país exige esforço para pensar grande, para sonhar com um futuro relevante.

Fonte.
Links:   http://escolascritique.com.br/2019/05/15/carta-aberta-das-escolas-do-grupo-critique-ao-ministro-da-educacao/?fbclid=IwAR2RP8hCmGNwh61YSWAnMeXXRk_LktEtFYz82qpbFrNMd_rtjrW8U7y7zOY

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