Marco Aurelio Seta
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Educação na Finlândia

Saiu uma reportagem no Globo durante esta semana sobre os êxitos da educação na Finlândia. Nada surpreendente porque todos conhecem o alto nível de maturidade humanística que este país atingiu, em conjunto com seus vizinhos escandinavos. Mas algumas informações específicas sobre as razões deste êxito são muito interessantes e dignas de sublinhar, ainda que não desconhecidas entre nós.
A primeira é a confirmação da tão evidente importância primordial do professor, o agente da formação, ou da educação no conceito pleno, que compreende a valorização do bem-estar das crianças e vai muito além da informação que pode ser lida nos livros ou tirada do Google. O professor lá é formado e pós- graduado com cuidado em universidades de excelência; o professor tem um salário alto, no mínimo igual ao de qualquer profissional superior no mercado; o professor e prestigiado na sociedade: a notícia dá conta de que o magistério é a profissão mais procurada pelos jovens finlandeses, preferida por um em cada cinco que terminam o ensino médio e buscam a universidade.
A segunda é a da importância do ambiente escolar, na perspectiva física e na psicológica. Isto faz pensar não só em limpeza e conforto como na condução das atividades de maneira a manter elevado entre as crianças o gosto pela escola, a motivação e o sentimento de autoestima de toda a instituição. Impossível deixar de lembrar aqui a luminosidade das faces das crianças que eu vi nos primeiros tempos de funcionamento dos CIEPs.
No que concerne ao ambiente físico, vale a pena mencionar a resposta do educador finlandês à pergunta sobre o uso de tecnologias novas no ensino, com o necessário equipamento, uma pergunta obviamente feita na expectativa de uma resposta bastante valorizadora das últimas modernidades, tendo em vista o notável desenvolvimento tecnológico daquele país. A resposta foi simples, mostrando que a tecnologia pode ser usada mas o foco principal é mesmo a pedagogia, a velha busca do melhor e mais saudável relacionamento entre seres humanos, professor e alunos, ainda que sem tecnologia. É uma pedagogia que não atende às demandas do mercado, que não sobrecarrega as crianças com saberes técnicos, com deveres de casa e provas de verificação, mas prioriza o aprendizado feliz para a vida, preocupa-se mais com o ensino da convivência do que da ciência.
A terceira característica do excelente sistema educacional finlandês é de cunho eminentemente político, democrático: trata-se da implementação efetiva da igualdade de oportunidades para todas as crianças do país no que respeita à educação. Todas as escolas são públicas; todas as crianças estudam em escolaspúblicasdomesmopadrão,damesmaeboaqualidade. Esteéumcompromissopolíticoassumido pela nação finlandesa há quase 50 anos; é uma firme política de Estado; um compromisso antigo de toda a sociedade!
Bem, não dá para pensar em comparações nem reproduções do sistema aqui no Brasil: a Finlândia tem cinco milhões de habitantes, um pouco menos do que a cidade do Rio de Janeiro. Mas certamente dá para tirar lições. Lições que são eminentemente políticas; lições que valorizem muito mais a dimensão humanística da educação do que a dimensão econômica de formação especializada para o mercado, como vem fazendo a Coréia do Sul, tão frequentemente mencionada, e como parece que está fazendo a China no seu projeto de expansão mundial.

São lições para a política, sim, na medida em que só através da política pode uma nação realizar um projeto de tal envergadura para a educação, destinando-lhe os recursos necessários com absoluta prioridade sobre todos os demais setores.
Desde há muito, desde o tempo do grande senador Teotônio Vilela, ouço falar na importância de o Brasil ter um Projeto de Desenvolvimento. Lembro-me que Teotônio escreveu um livro sobre o tema, em parceria com o também grande Raphael Magalhães. Tenho para mim que este Projeto, mais do que um livro ou um documento escrito e aprovado, é sobretudo uma linha política, uma diretriz política geral sancionada eleitoralmente, que só pode ser detalhada na prática da sua implementação. Hoje o mundo todo reclama pela formulação de um modelo econômico-social alternativo ao do falido neoliberalismo. Seria a responsabilidade principal dos partidos de esquerda, em substituição ao modelo socialista soviético, que também desmoronou. Acho até que há uma expectativa, pelo menos na América do Sul, que a esquerda brasileira ofereça uma proposta neste sentido. Pessoalmente, quero me dedicar a este esforço, de maneira muito modesta, mas sem deixar de contribuir com algumas considerações e sugestões. E logo aproveito para dizer que, a meu juízo, o primeiro ponto a ser listado na composição de uma diretriz política desta natureza seria precisamente este compromisso absoluto com a educação, seguindo as linhas das lições referidas neste Correio.

Fonte e Creditos: Roberto Saturnino Braga
Contatos: saturnino.braga@uol.com.br www.saturninobraga.com.br

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