Marco Aurelio Seta
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Há grande probabilidade do retorno de ondas epidêmicas de zika e chikungunya

Chuvas, temperatura elevada, aliadas a coleta deficiente de resíduos sólidos urbanos, violência, que dificulta o acesso a determinadas áreas para ações da saúde, e abastecimento irregular de água para uso doméstico, em um cenário de recessão e franca crise econômica, política e social são condições propícias à proliferação do aedes aegypti. O alerta é do infectologista, Rivaldo Venâncio, pesquisador associado do CEE-Fiocruz, que explica neste comentário ao blog,  a possibilidade de que venhamos a ter uma epidemia de Zika e chikungunya, de magnitude gigantesca, entre o segundo semestre de 2018 e início do ano de 2019.

Segundo Rivaldo, o índice de infestação do mosquito aedes aegypti é elevado, e o país não está preparado para enfrentá-la.“Infelizmente, o cenário não é dos melhores”. De acordo com o pesquisador, o último boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, divulgado em agosto de 2018, registra redução do número de casos, mas não reflete em tempo real essas ocorrências. “Há sempre um diferencial de tempo entre a ocorrência dos casos de determinada doença e a notificação na unidade de saúde e posteriormente a sua inserção no sistema”. Assim, os números podem ser muito maiores.

 

Confira abaixo o comentário.

 

“Há sempre um intervalo de tempo entre a ocorrência de casos de determinada doença e sua notificação. Isso também vale para as arboviroses. Temos observado que, aparentemente, amagnitude da epidemia de chikungunya, durante o primeiro semestre de 2018, no Estado do Rio de Janeiro, foi infinitamente maior do que o número de casos registrados, talvez o dobro do que indica o Sistema Nacional de informação de Agravosde Notificação (Sinan/Ministério da Saúde), que os municípios alimentam. Foram registrados cerca de 23 mil casos, mas, acredito que tivemos, no primeiro semestre, algo próximo de 50 mil. Faço essas afirmações baseado no que observei em Niterói e em São Gonçalo e do que ouvi a respeito do Norte Fluminense, em especial em Campos. O número de casos pode ser realmente muito maior do que o registrado até o momento.

Há que se lembrar que as condicionantes macroambientais para a ocorrência das doenças transmitidas pelo aedes aegypti não foram modificadas ao longo de décadas – ou foram muito pouco. Estamos falando de um mosquito cuja reprodução se dá em objetos que acumulam água, da chuva ou armazenada de forma improvisada para o uso doméstico. Continuamos a ter, em várias regiões do Brasil, carência de abastecimento contínuo de água. Consequentemente, a população acaba armazenando água inadequadamente, em objetos que se tornam focos de proliferação do mosquito. Essa realidade persiste, e os índices de infestação do mosquito nos domicílios continuam elevados.

Há um fator adicional, que é possível observar em localidades com índices altos de violência urbana que é a dificuldade de acesso para ações de saúde, dirigidas à redução dosfocos do mosquito. Temos diversas comunidades no Rio deJaneiro e em Fortaleza, por exemplo, nas quais nem policiaiscom coletes à prova de bala entram, quanto mais um agente controlador domosquito. Ou seja, a violência urbana hoje além de ser uma epidemiapersistente, tem uma interface com o quadro dasdoenças transmitidas por vetores.

Chamo atenção, especialmente, para o Rio de Janeiro no que se refere à chikungunya. A possibilidade de que venhamos a ter uma epidemia de magnitude gigantesca no segundo semestre e na virada para o ano de 2019 é muito grande. Temos todos os fatores necessários à ocorrência de epidemias e uma população suscetível ao vírus, uma vez que ainda são poucas as pessoas que tiveram chikungunya no Rio de Janeiro, e não há anticorpos desenvolvidos.  Temos um índice de infestação do aedes aegypti elevado; no verão, temos chuvas generosas e temperatura muito elevada, aliadas a uma coleta deficiente de resíduo sólido urbano e à violência, tudo isso, em cenário de recessão, franca crise econômica, política e social. Ou seja, não estamos preparados. Infelizmente, o cenário não é dos melhores.

Vivemos no Brasil uma ausência de governança, as possibilidades de intervenção são muito poucas. A origem dessas epidemias está, em grande medida, fora da governabilidade do setor Saúde. Não é o setor Saúde que tem que fornecer água de forma regular, fazer a coleta do resíduo sólido, resolver a violência, resolver o desemprego, a recessão econômica e a desesperança do povo. O que cabe ao setor é organizar uma rede de atenção primária para enfrentar essas epidemias e amenizar seu impacto.

Precisaríamos de uma rede de pronto-atendimento pujante, funcionando de forma articulada em rede, mas essa rede também está em crise. O que vemos é falta de pagamento aos trabalhadores de várias unidades de saúde, fechamento de unidades, ou seja, o cenário e as possibilidades para amenizar os impactos não é bom. Dependemos de uma governança para articular essa rede de atenção.

 

Não é o setor Saúde que tem que fornecer água de forma regular, fazer a coleta do resíduo sólido, resolver a violência, resolver o desemprego, a recessão econômica e a desesperança do povo

 

No caso da zika, o fato de se ter reduzido muito a circulação do vírus causador da doença não significa, de forma alguma, que estejamos livres de novas epidemias. Ao contrário, a expectativa dos especialistas é de grande probabilidade de retorno de ondas epidêmicas da zika. Não se sabe precisar onde, quando, mas a expectativa é essa. Infelizmente as perspectivas para uma vacina contra zika estão em horizonte bem distante. Sendo otimista, eu diria que levará entre oito e dez anos para que possa ser utilizada na rotina da rede de atenção.

Precisamos orientar a população, divulgar ao máximo os riscos de uma nova epidemia. Devemos reduzir os índices de infestação do mosquito transmissor. No caso da zika, especificamente,há comprovação de transmissão sexual também. Portanto é necessária uma ampla campanha de divulgação sobre mecanismos e formas de transmissão do vírus.

Estamos falando de doenças emergentes, que não estudamos quando passamos pelos bancos das faculdades. Há necessidade maior de dedicação para aprender aspectos da doença que nós ainda desconhecemos

É também indispensável fortalecer a rede de atenção para o diagnóstico precoce, porque em suamanifestação inicial, a zika pode se confundir com diversas outras enfermidades virais ou não virais transmissíveis, e,nessa situação,é importante um diagnóstico laboratorial disponível em larga escala.

Estamos falando de doenças emergentes, sobre as quais não estudamos quando passamos pelos bancos das faculdades. Há necessidade maior de dedicação para aprender aspectos que ainda desconhecemos. No entanto, estamos tendo gravíssimos problemas na organização, na estruturação da rede de atenção, situação que está para além da competência do profissional que vai atender os doentes. Minha preocupação maior não é com a competência do profissional de saúde, porque nesse eu confio; minha preocupação é com a organização e a estruturação dessa rede de atenção, de diagnóstico, de suporte e de acompanhamento posterior, em um país que vive uma recessão econômica grave, uma crise política magnífica e incertezas quanto ao futuro. Dependendo do resultado, poderá não ser futuro, e sim passado. (Comentário a Daiane Batista/Cee-Fiocruz)

Fonte: Rivaldo Venâncio

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